Ayni: muito além de uma escola, uma forma de viver

Ayni: muito além de uma escola, uma forma de viver

“A Ayni nasceu de um sonho, de uma jornada de vida e de autoconhecimento em uma viagem de 3 anos pelo mundo. Thiago era um empresário jovem que viveu em Guaporé, no interior do Rio Grande do Sul, até os 16 anos, quando foi expulso de casa e acabou indo morar em Porto Alegre. A vida sempre lhe permitiu experimentar diversas situações precocemente e hoje ele entende que houve uma razão sábia para tudo isso: ‘ Posso, ainda jovem, colocar-me a serviço e usar o que aprendi para algo que eu acredito, sem buscar nada, apenas expressar o que encontrei dentro de mim’.”

O Thiago cruzou as Américas, do Alasca ao Uruguai, de moto, parando em diversas escolas de ensino alternativo no caminho

O Thiago cruzou as Américas, do Alasca ao Uruguai, de moto, parando em diversas escolas de ensino alternativo no caminho

E assim começa a história da Ayni, que partiu de um sonho que foi semeado durante toda a trajetória do Thiago, brotou em suas andanças pelo mundo e começou a florescer recentemente. Mas por que venho falar do sonho dessa pessoa específica? Porque esse sonho que ele sonhou, de uma forma ou outra, também faz parte de mim.

A minha história com a Ayni

 

O primeiro contato

 

Conheci o Thiago e a sua trajetória um pouco depois dele ter voltado ao Brasil. Algo dentro dele estava certo, de que ele precisava, que fazia parte da missão dele, reunir todos os conhecimentos e tudo que ele experienciou durante a sua viagem e construir uma escola. E não uma escola qualquer, claro. Uma escola que desafiasse o padrão que foi criado artificialmente, que foge do ritmo natural dos seres humanos, e desenvolver um espaço onde as crianças pudessem se expressar e prosperar de acordo com as suas verdadeiras essências e habilidades. Afinal, as crianças são o futuro do nosso planeta e como elas irão interagir com ele determina o que será disso tudo.

Um pequeno parêntesis, o Thiago visitou e voluntariou em diversas escolas de ensino alternativo durante a sua viagem, como as dos métodos Waldorf, Montessori e da Ponte.

Então o que faltava pra tudo isso se realizar? No quesito saber, nada. Quanto a força de vontade, determinação e realmente acreditar na ideia, também nada. Tudo era questão de materializar o que estava dentro dele no mundo físico (local, construção, e por aí vai) e reunir forças com outras pessoas que embarcariam nesse lindo sonho com ele.

Voltando ao momento em que eu entro nessa história toda (e pode esperar muitos vai e vens enquanto conto, porque no final das contas, a vida não anda em linha reta, nem na sequência de fatos certinhos, e muito menos eu :) )…

O Thiago, esse jovem ancião (não é por nada não, mas ele possui uma sabedoria muito além de seus 30 e poucos anos), com toda essa vontade de criar algo que também ressoava comigo desde pequena (sempre achei que havia algo de esquisito no método de ensino que fui inserida e hoje eu entendo porque), despertou algo em mim que capitou a minha atenção. Fiquei sabendo do projeto antes de ter um espaço de fato, no momento em que se falava muito em possibilidades, mas não havia nada concreto. A maneira como tudo foi se encaixando e foi acontecendo (muito rapidamente, por sinal) me fez perceber que tudo isso já estava escrito, que teria que acontecer e me motivou mais ainda em querer ajudar de alguma maneira.

Um prime do que seria esboço a Cidade Escola Ayni

Um primeiro esboço do que seria a Cidade Escola Ayni

 

E o sonho começa a tomar forma

 

Como eu estava dizendo, tudo começou a se encaixar. A Ayni foi concedida um local mágico, dentro de um bosque encantado em Guaporé (a oportunidade de transformar tudo de negativo que o Thiago passou na sua infância e “renascer” para algo extremamente positivo), amigos que ele fez viajando e que poderiam agregar ao projeto toparam se envolver, pessoas que identificaram com as histórias que ele estava contando em palestras pelo país quiseram colaborar.. e assim tudo começou a se movimentar, acontecer.

O bosque em Guaporé, local onde a escola está sendo construída

O bosque em Guaporé, local onde a escola está sendo construída

Thiago dando palestra no TedX Passo Fundo

Thiago dando palestra no TedX Passo Fundo

De início, fiz o que achava que poderia fazer, que era traduzir o site da escola para o inglês e que dessa maneira pessoas do mundo inteiro teriam a possibilidade de conhecer o projeto. (Pra quem não sabe, fui bebê para os EUA e voltei pro Brasil na adolescência, então com o inglês como primeira língua, não me custava nada desempenhar essa tarefa). Mas eu queria me envolver mais, envolver a Cem Por Cento de alguma forma já que esse sonho faz parte da essência da minha empresa.

O PDC – Permaculture Design Course – e a passagem só de ida

 

Permaculture…?

A palavra permaculture vem de permanent agriculture ou agricultura permanente e se define resumidamente como “uma ferramenta de planejamento para o desenvolvimento sustentável de pessoas, projetos e lugares. É uma ciência de projetar, baseada em princípios ecológicos, biológicos, éticos e de ação, observando e seguindo padrões que ocorrem na natureza para maximizar resultados com o menor esforço (energia) possível”.

Antes da Ayni eu já tinha ouvido falar nessa tal de permacultura, mais por ter feito curso de sistemas agroflorestais do que qualquer outro motivo, mas não tinha me aprofundado no assunto. Foi quando o Thiago começou a divulgar o PDC e me convidar para participar e vivenciar tudo isso que me apaixonei por esse trabalho. Bioconstrução, alimentos agroecológicos, colocar as mãos e os pés na terra é comigo mesmo!

Aceitei o convite e estava super animada por finalmente poder conhecer o bosque onde seria construída a escola e por poder pegar junto na fase inicial. Em síntese, cheguei lá e veio a primeira frase de uma música originalmente cantada pelo Bob Marley e popularizada em português pelo Ponto de Equilíbrio e Tribo de Jah, “há uma magia natural fluindo no ar…”. Sim, lá havia algo diferente, e estava claro, não tinha como negar, e a partir do momento que cheguei já sabia que aconteceria algo de transformador nos 10 dias de curso que estavam por vir.

E a jornada começa

E a jornada começa

Primeiro contato com Guaporé - Me energizando no caminho de cristais no centro da cidade

Primeiro contato com Guaporé – Me energizando no caminho de cristais no centro da cidade

O que realmente aconteceu no PDC não tem palavras pra explicar, é algo que se sente, mas posso dizer que aprendi muito sobre tudo, bioconstrução, cooperação, comunicação não-violenta (algo que eu já estava implementando na minha vida e serviu de complementação), mas especialmente sobre mim mesma e que de lá voltaria pra casa mudada.

Desenho do teto recíproco - Bioconstrução

Desenho do teto recíproco – Bioconstrução

O capitão da nave Permacultural - Tierra Martinez

O capitão da nave Permacultural – Tierra Martinez

Começando o projeto

Começando o projeto

Limpando o terreno

Limpando o terreno

E o sonho começa a tomar forma durante o PDC

E o sonho começa a tomar forma durante o PDC

A união faz a força

Trabalhando duro :)

Trabalhando duro :)

Só alegria

Só alegria

Minhas companheiras de fé. Nem o barro barra a gente :)

Minhas companheiras de fé. Nem o barro barra a gente :)

De volta a Guaporé

 

Retornei a Porto Alegre após o PDC com uma vontade de ficar por lá. A fase do voluntariado estava logo ali e comecei a me organizar pra retornar. Consegui mais 10 dias para ver levantar as obras de camarote e poder colocar um pouquinho mais de mim ali. Não só eu, mas muitos participantes do curso também retornaram para continuar ajudando. Foi muito lindo o nosso reencontro, nos tornamos uma família, todos ali com as suas particularidades e habilidades agregando na evolução de um sonho.

Sacolera voltando pra Guaporé cheia de comida orgânica e vegana

Sacolera voltando pra Guaporé cheia de comida orgânica e vegana

Só no bambu

Só no bambu

A Yurta (construção típica da Mongólia) tomando forma

A Yurta (construção típica da Mongólia) tomando forma

Teto recíproco do banco de sementes

Teto recíproco do banco de sementes

Banco de sementes

Banco de sementes

Passado tudo isso, faço o possível para estar lá e sempre quando dá, vou até Guaporé e mato a saudade. Inclusive, estou digitando nesse momento dentro do ônibus, a caminho desse pequeno paraíso. O mais legal de tudo é que, por ter vivenciado tudo isso e ter espalhado as sementinhas que recebi por lá por onde eu vou, vejo como esse projeto ressoa com muitos outros. O interesse de conhecer e vivenciar o que é a Ayni chegou nos corações de pessoas conhecidas e não conhecidas e isso fortalece o sentimento que tenho no meu coração.

Me sinto parte da Ayni, parte de que é ser Ayni, do todo, do coletivo. Sinto vontade de continuar lá, acompanhando e me emocionando com a magia, com o seu crescimento. Lá encontrei um pedacinho de mim, dentro desse sonho, dentro das pessoas incríveis que conheci, dentro de uma cidade interiorana de 24 mil habitantes e sua beleza natural de riachos e cachoeiras. Me reconectei com a terra, com a minha essência e com a vontade de semear essa sabedoria pelo mundo. Ayni sempre esteve dentro de mim.

Amanhecer em Guaporé

Amanhecer em Guaporé

Cachoeira do Bíscaro - Guaporé

Cachoeira do Bíscaro – Guaporé

Mas o que é Ayni afinal? Ayni significa cooperação e solidariedade em Quechua, o idioma dos Incas. “É uma forma de viver que se manifesta em relações sociais de ajuda mútua e reprocidade”.

Faz parte da minha natureza e da natureza de todos nós, que se perdeu a medida que fomos ficando cada vez mais desconectados com a nossa essência. Algo que começamos a redescobrir, a reaprender e que está gerando um movimento mundial de questionamentos de padrões que foram estabelecidos artificialmente. A cooperação, a colaboração, a empatia, a compaixão que andavam adormecidos estão despertando, de formas diferentes, porém igualmente necessárias para transformar o nosso planeta e os seus habitantes (que estão pedidindo socorro há um bom tempo).

Somos todos um

Somos todos um

Não existe nada mais lindo e gratificante do que fazer algo que sentimos ter um propósito genuíno por trás, que toque não somente as nossas vidas, mas principalmente a vida do outro.

Se permita se sentir, se escutar, se conhecer e se perguntar “o que minha alma anseia expressar nessa existência?”. A resposta está ali, onde você menos esperava, dentro de você.

A história da Ayni e o PDC movimentaram 76 pessoas de 11 países diferentes a se engajarem nesta jornada e foi uma experiência extraordinária poder participar desse processo. Só tenho o que agradecer ao Thiago, que manifestou esse sonho e teve a coração de torná-lo realidade, e ao “Capitán de la nave”, Tierra Martinez, que literalmente, não figurativamente, é um ser de outro mundo e é puro coração e sabedoria. A união dos dois conseguiu juntar um grupo de pessoas incríveis e essenciais para a primeira fase do projeto acontecer. Gratidão a eles, a Beatriz, a Elba, ao Sebastian e a todos os envolvidos.

Viramos uma grande família

Viramos uma grande família

Para o sonho continuar se materializando, é preciso ajuda de todas as formas:
  • voluntariado (por enquanto estamos na fase de construção, então basicamente é pegar junto no pesado)
  • recursos como material de construção entre outras coisas
  • compartilhamento do que é o projeto e da sua importância via redes sociais, boca-a-boca..

Enfim, doações de todos os tipos, todo e qualquer movimento é honrado.

O próximo PDC será realizado em janeiro, dos dias 08 a 17.

Mantenha-se informado sobre tudo que acontece na Ayni pela página do Facebook e pelo site.