Revolução na cozinha e na vida

Revolução na cozinha e na vida

por Marisa Silveira

Quando, em setembro de 2003, aos 25 anos, saí da casa dos meus pais no Rio para fazer um doutorado em Londres, não imaginava que minha vida mudaria tanto. Não imaginava que passaria por uma revolução pessoal que me fez tomar consciência da minha pegada ambiental e que passaria a enxergar o mundo de maneira totalmente diferente. Tal revolução teve início na cozinha.

 

Nunca fui de questionar muito meus hábitos alimentares. Como boa parte da classe média alta no Brasil, passei a minha infância e juventude sem ter que me preocupar com idas ao supermercado ou com o trabalho na cozinha. Quase como um ‘milagre’, as refeições chegavam à mesa, sem esforço algum da minha parte.

 

O ‘milagre’, no entanto, parou de acontecer quando fui morar em Londres, como estudante de doutorado, e me vi, pela primeira vez, em uma situação em que tinha que comprar e cozinhar a minha própria comida. Cheguei à conclusão de que tinha duas opções: viver à base de pizzas congeladas e saladas pré-lavadas ou aprender a cozinhar.

Decidi que aprenderia a cozinhar!

 

Nos primeiros meses, comprava somente produtos muito baratos, porém de qualidade duvidosa, já que vivia de bolsa estudantil e temia não ter dinheiro suficiente até o fim do mês. Afinal, pela primeira vez na vida tinha que pagar aluguel e outras contas. Aos poucos, fui tomando gosto pela cozinha. Dividia um apartamento com uma americana que cozinhava muito e bem, e isso acabou me ajudando.

 

Depois de alguns meses em Londres, conheci um italiano e começamos a namorar. Nosso relacionamento se fortaleceu rapidamente e a cultura gastronômica do namorado, que depois virou marido, e de sua família  (comida quase sempre fresca, inexistência de fornos de micro-ondas nas casas, etc) passou a me influenciar muito.

 

Gradualmente, passei a me interessar por produtos de melhor qualidade e também por alimentos mais saudáveis. Cozinhar e comer bem passaram a ser uma das minhas prioridades. Sendo Londres a metrópole que é, seus supermercados costumam oferecer ingredientes étnicos de várias partes do mundo. Encantava-me com a possibilidade de conhecer sobre a culinária de outros países.

 

No entanto, preocupava-me somente com a qualidade dos produtos e com a possibilidade de cozinhar coisas diferentes, sem me interessar pela origem ou por quem plantava ou produzia o que eu comprava.

 

Aos poucos, meu interesse por alimentação evoluiu e passei a me interessar também por outras questões relacionadas a comida, como aspectos sociais e ambientais do atual sistema de produção de alimentos e alternativas mais favoráveis a produtores

 

Passei a devorar livros e documentários sobre o assunto. Supermercados, para mim, passaram a servir para a compra de alimentos não-perecíveis, como nozes, grãos e alguns outros poucos itens, pois habituei-me a comprar vegetais, frutas, carnes, laticínios e ovos quase que somente em mercados de produtores locais, seguindo estritamente as estações do ano. A prática se consolidou ao longo dos anos.


O prazer que eu tenho ao ir à feira de produtores locais é enorme. Poder conversar com quem produz os alimentos que como e poder conhecer um pouco sobre essas pessoas é, para mim, algo imprescindível atualmente. Quando me mudei para Washington DC, há cerca de seis anos, tinha somente uma certeza: escolheria um apartamento em função da proximidade do mercado de produtores locais!

 

Marisa já foi linguista mas depois virou ambientalista. Ela conta tudo sobre essa transformação, que teve início na cozinha, no Eco Maternidade (http://ecomaternidade.com.br/), um espaço para pensarmos a criação de nossos filhos levando em consideração o meio ambiente.